O estopim do confronto
O governo de Donald Trump concluiu na última segunda-feira (1º) uma investigação comercial contra o Brasil e propôs a imposição de tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras. Entre os alvos da acusação está o Pix, sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central, classificado pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) como "injusto" e "discriminatório" por favorecer um serviço estatal em detrimento de empresas americanas.
A investigação partiu de uma determinação do próprio Trump em julho de 2025 e se ampara na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, dispositivo legal que autoriza o governo americano a investigar práticas comerciais de outros países e a adotar medidas de retaliação, como tarifas e sanções, quando considera que essas práticas prejudicam os interesses dos EUA. O mesmo instrumento já foi utilizado para impor tarifas à China. Na prática, funciona como ferramenta de pressão internacional para proteger interesses comerciais norte-americanos.
Como se chegou aos 25%
O número não surgiu do nada. Em julho de 2025, quando a investigação começou, Trump já havia anunciado uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros por meio da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA, na sigla em inglês), legislação que concede ao presidente americano poderes amplos para agir em situações de emergência econômica nacional. O cenário mudou em fevereiro de 2026, quando a Suprema Corte dos EUA derrubou o uso da IEEPA para a imposição unilateral de tarifas. Em resposta, Trump adotou um novo instrumento legal e anunciou uma tarifa global de 10%, válida até 24 de julho. A investigação pela Seção 301, agora concluída, propõe os 25% adicionais especificamente contra o Brasil, com base nas práticas comerciais consideradas desleais pelo USTR.
O que os EUA criticam no Pix
Para o USTR, o problema central está no duplo papel do Banco Central brasileiro: o órgão atua simultaneamente como regulador e operador do Pix, o que, segundo os americanos, limita a concorrência e prejudica empresas privadas dos EUA. Além disso, o governo americano critica a gratuidade do sistema para pessoas físicas e a obrigatoriedade de que os bancos destaquem o Pix na página inicial de seus aplicativos.
Contudo, especialistas ouvidos pelo g1 rejeitam a argumentação. Para Ralf Germer, CEO da PagBrasil, empresa brasileira especializada em soluções de pagamento, o Pix não foi criado para substituir outros meios de pagamento. Ele aponta que, desde o lançamento do sistema, os cartões de crédito continuaram crescendo e havia tempo suficiente para que as empresas estrangeiras se adaptassem e desenvolvessem soluções competitivas.
Jorge Ferreira dos Santos Filho, economista e professor da ESPM, escola de negócios e comunicação de São Paulo, oferece uma leitura diferente sobre as motivações reais da ofensiva americana. Segundo ele, o Pix representa concorrência direta a gigantes como Visa e Mastercard, além de fintechs — startups especializadas em serviços financeiros digitais — e big techs que lucram com taxas sobre transações. Enquanto nos EUA a regulação permite cobranças por transferências instantâneas, no Brasil essas empresas enfrentam a obrigação de integrar o Pix para operar.
O Pix como vitrine geopolítica
Além da disputa comercial imediata, há um componente estratégico que preocupa Washington. Pedro Henrique Ramos, diretor-executivo do Reglab, centro de pesquisa privado brasileiro especializado em mídia e tecnologia, avalia que o sucesso do Pix transformou o sistema em modelo de inovação estatal eficiente, com potencial de replicação em outros países, o que representa uma ameaça ao domínio de empresas americanas no mercado global de meios de pagamento.
O avanço do Pix Internacional adiciona outra camada de tensão. O Banco Central trabalha para expandir os pagamentos transfronteiriços e conectar o sistema a outros países. Nesse cenário, especialistas apontam que a possível integração do Pix às discussões do Brics — bloco de países emergentes que reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e outros — sobre alternativas ao dólar é o ponto que mais incomoda o governo americano.
"Esse pode ser o ponto que mais incomoda o governo americano: a criação de uma moeda única do Brics e o possível uso do sistema Pix para reduzir a influência do dólar nas negociações entre esses países", afirma Fabrizio Velloni, economista-chefe da Frente Corretora.
As outras acusações
O Pix, no entanto, não é a única queixa dos EUA. O relatório final do USTR lista uma série de práticas brasileiras consideradas prejudiciais ao comércio norte-americano. Entre elas estão acordos comerciais do Brasil com México e Índia que, segundo os americanos, concedem tarifas preferenciais injustas. O documento também critica a aplicação histórica insuficiente das leis contra o desmatamento ilegal, a falta de reciprocidade no tratamento tarifário do etanol desde 2017 e deficiências na proteção da propriedade intelectual, incluindo a lentidão do INPI — Instituto Nacional da Propriedade Industrial, órgão federal responsável pela análise e concessão de patentes no Brasil — para processar patentes biofarmacêuticas, o que pode levar até 109 meses.
Por fim, o relatório aponta o combate insuficiente à corrupção no Brasil, citando especificamente a anulação de processos da Operação Lava Jato pelo STF em 2023 e a queda do país no Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional, ranking global que mede o nível percebido de corrupção no setor público de cada país.
O que está isento e o que vem por aí
Apesar da proposta de tarifa ampla, o documento prevê exceções. Carnes, frutas, café, cereais, aeronaves e peças, terras raras, produtos farmacêuticos e fertilizantes estão entre os itens que escapariam da sobretaxa.
Antes de qualquer sanção definitiva, o governo americano abriu um cronograma de consultas públicas. Os interessados têm até 22 de junho para solicitar participação na audiência pública, marcada para 6 de julho. O prazo legal para a aplicação das medidas corretivas é 15 de julho de 2026.
O Itamaraty ainda não se pronunciou oficialmente. As negociações entre os dois países, que se intensificaram após o encontro entre Lula e Trump em maio na Casa Branca, não avançaram o suficiente para evitar a conclusão da investigação, e o presidente brasileiro ainda busca uma nova conversa com Trump para tentar reverter o cenário.
Com dados do G1.
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